
Chegamos na cidade por volta das 10h e fomos procurar a casa de Esther. Ela não nos deu o endereço, disse que era só perguntar na rua que todos sabiam onde morava a Maria do Samba. Depois de abordar alguns moradores, encontramos a casa vinho, com moldura em azul e janelas fechadas. Na porta, um oratório, com enfeites de natal, miniaturas de violões e máscaras de carnaval penduradas.
Depois de algumas palmas, ela nos atende. Rosto carregado de maquiagem, sobrancelhas perfeitamente traçadas por um delineador, brincos, anéis e roupas elegantes, mas gastas pelo tempo. Explica que prefere um lugar mais calmo para a entrevista e sugere a casa de uma amiga. Segundos depois muda de ideia e sugere um pesqueiro e restaurante para o bate-papo. “É longe, mas é pertinho, em uma hora estamos lá”.
Longe dos vizinhos, ‘todos fofoqueiros’, a sambista fala baixo. A história do samba paulista se mistura completamente com a dela e seguir uma ordem cronológica fica praticamente impossível. É difícil precisar as datas reveladas por ela, pois todos os momentos memoráveis aconteceram aos 15 ou 16 anos e pouquíssimo dessa história foi documentado por estudiosos e pesquisadores.
Esther conta da dificuldade que tinha com o pai, um “caipirão”. A rainha apanhava de vara de marmelo quando surpreendida nos barracões, faltando à escola para acompanhar as batucadas. Em uma de várias surras, um dos músicos do barracão intercedeu pela garota. “Não bate na menina, deixe ela ficar aqui”, pediu ao pai de Esther, que tinha apenas 12 anos e diversas marcas das surras que levara com a vara. Mesmo havendo preconceito com a presença de brancos no local, os negros ficaram com dó de Maria Esther e a deixavam entrar no samba.
Na mesma época, ela conheceu Honorato Missé, fazendeiro branco e de muita influência local. Frequentador da festa e também das batucadas, Honorato Missé resolveu desenvolver um novo batuque, que Esther chama de samba de branco, conhecido posteriormente como samba de bumbo. Vendo a participação ativa da menina nas rodas, Missé a convidou para participar desse desenvolvimento e não demorou para que ela logo estivesse nas danças com o bumbo ou com chocalhos e colheres.
No inicio, Esther não sabia os passos e imitava as coreografias feitas nos barracões. “Eu não sabia dançar, só mexia a bunda, como tinha aprendido com as negras”. Da convivência com essas mulheres, a sambista também herdou a fé na Umbanda. Apesar da família tradicionalmente católica, as influências a levaram a ser mãe de santo. Foi numa das festas que ela conheceu Madrinha Eunice, fundadora da primeira escola de samba da cidade de São Paulo, a Lavapés.
Em 1994, Esther fundou o grupo Samba de roda, uma das atrações principais da festa de Bom Jesus do Pirapora, no mês de agosto. Nas apresentações, as mulheres dançam e mexem suas saias, algumas até se arriscam nos instrumentos, mas a predominância é masculina.
A simplicidade se revela também no modo de comer. Ela só usa colher e come com muita calma, em meio às brincadeiras com a cozinheira do lugar. Quando a moça se distrai, Esther abre a sacola plástica e despeja toda a comida que estava em seu prato. “É para o jantar. Ou para o meu vizinho. Coitado, ele passa muita necessidade”.
A casa está cheia, e assim que ela chega, o samba vira segundo plano. As atenções se voltam para ela. Muito simpática, tira fotos, abraça alguns participantes e dança. Uma presença típica de rainha. Quem a vê rodando a saia percebe que a menina que fugia aos barracões ainda comanda o rebolado da senhora.
* agradecimento especial para Renan Rodrigues!

Na busca por entender um pouco sobre a história, as origens e o desenvolvimento do samba paulista, lemos artigos e mais artigos e também bons livros, que encontramos no mercado editorial, já que esse se apresenta bastante escasso quando o assunto é samba na cidade de São Paulo.



