segunda-feira, 27 de julho de 2009

"O Samba é uma entidade"


Na última sexta-feira fomos ao show de Mariana Aydar no teatro Cacilda Becker, em São Bernardo. Simpática, ela entrou no palco agradecendo aos 300 convidados por enfrentarem a noite fria e chuvosa para garantir o ingresso e prestigiá-la. Ela confessou que cantar em São Bernardo tem um gosto especial: a cidade foi onde Mariana passou parte da infância, pois os tios e primos – que estavam na platéia – moram lá.

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Apesar do show de lançamento do novo CD ser só em setembro, ela mostrou as músicas Peixes, Ta?, Palavras não falam (a primeira composição dela) e Aqui em Casa – parceria com Duani e uma das melhores do CD. No repertório também entraram músicas do primeiro CD, Kavita, e alguns sambas como Vai Vadiar e Zé do Caroço.

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No final do show, e após o bis (que Mariana tocou uma versão de Zé do Caroço com batidas de funk), contamos para Mariana do nosso projeto, da ideia de exaltar as mulheres que se destacam no samba, e batemos um papo com a cantora. Ela contou a sua história com o samba, falou do pré-conceito de ser filha de artista, das diferenças Rio - São Paulo e, claro, das mulheres ! Seguem alguns trechos da entrevista, que será publicada na íntegra no nosso livro.

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- No seu segundo disco há diversos sambas. De onde veio essa influência? Meu pai, ele tinha um grupo chamado “Premeditando o Breque”, e eles tocavam muito samba, muito samba paulistano. Quando eu estava na sétima série tinha um caroneiro que me levava pra escola, era um monte de criança e eu não me identificava com as pessoas. Tinha o Luis, o motorista, que era da Leandro de Itaquera e na volta ele não deixava ouvir jovem pan, que eu adorava. Ele colocava numa rádio comunitária de samba que só tinha assim... Leci, Branca de Neve, Fundo de quintal, Zeca, tal... Então eu fui ouvindo e sempre gostei. Aí quando eu fui morar em Paris, percebei que era um laço muito forte, que era uma coisa natural minha. Eu acho que o meu cantar, o jeito q eu vejo o meu canto é muito próximo do samba.

- e você quer ser reconhecida como uma sambista? Não. Eu estudei violoncelo, violão, então acho que é difícil fechar em uma coisa. O forro é muito próximo do samba, eu comecei como cantora de forró e cantei muito Jackson do Pandeiro. Mas eu não gostaria de ser, não é de não ser sambista, mas eu não quero fechar em uma coisa só, ser rotulada como nada. Mas o samba é uma entidade, eu tenho essa teoria. Ele é uma entidade que pega algumas pessoas pra ele, ele escolhe. Você é tomada e quando você é tomada realmente, não dá pra ficar sem. Não dá, você não consegue, é uma dependência.

- você acha que tem espaço para essas sambistas da nova geração? Eu acho, eu acho que começou a abrir a cena brasileira pros jovens. Todo mundo ouvia musica internacional quando éramos menores, e isso foi se abrindo. Acho que o samba nunca morre né? O samba sempre está lá. Acho que está chegando a outra classe social que é uma coisa nova. Por mais que chegou nessa classe com a bossa nova não era o samba mesmo, roots. Acho que está chegando e o Zeca é o maior exemplo disso. Ele é um cara muito importante pro samba na atualidade.

- mas e para mulher, você acha que tem espaço ou ainda tem muito preconceito? Acho, e não acho que tem preconceito, eu não sinto isso comigo nem de homem e nem de mulher. Eu fui muito bem recebida pelas pessoas do samba. Porque assim, sou paulista, branca, e eu sinto às vezes essa resistência, mas mais por uma questão da minha vida, e não por ser mulher. É mais por eu ter o não estereótipo de uma sambista. Eu sei que tenho samba no coração, então fico sossegada.

- e essa questão de paulistas e cariocas, você acredita que ainda exista resistência? Tem, tem sim, e é por parte dos dois. Gosto muito do samba do rio, acho que é diferente. Ao mesmo tempo, eu nunca fui ao Berço do Samba de São Matheus, onde dizem que o bicho pega mesmo. Não é questão de melhor ou pior, é uma questão cultural. SP é mais rock, eletrônico, está mais aéreo, porque lá está concentrado. O Rio é uma cidade menor, tanto na periferia, como na cidade, todos os lugares têm samba. E SP não tem essa cultura, então é diferente por essa questão. São Matheus tem essa cultura, mas é muito pequeno em relação ao tamanho da cidade.

- e falando em preconceito, você sentiu algum preconceito por ser filha de músicos ou você acha que te ajudou? Ter sido criada neste meio me ajudou muito porque eu criei intimidade com a música, o palco e tudo o que está em volta muito cedo. Eu não tenho medo de palco, não fico nervosa, não tenho essa coisa, porque fui criada nesse meio. Mas ao mesmo tempo as pessoas acham que minha mãe faz uma coisa pras mim e não é nada disso. Nesse ponto é um pré-conceito no sentido de não conhecerem a minha relação com a minha mãe ou a minha história de vida, então elas já acham alguma coisa.

- a mulher era vista como musa inspiradora e agora elas compõem, interpretam. Como você vê essa inversão de papéis?Olha, eu acho que isso tem a ver com a nossa época mesmo, da mulher. Porque até os anos 50, 60, era diferente a mulher na sociedade. Agora a coisa virou, a mulher vai trabalhar, cuida do marido, entendeu... faz e acontece, trabalha, bota dinheiro em casa e isso vem naturalmente pra música. Mesmo as mulheres compondo, eu mesma quando to compondo, sempre sai um samba. Acho que é uma questão social e eu acho ótimo porque a mulher é incrível, ela tem muita coisa pra falar, muitos sentimentos e o samba precisa disso, dessa sensibilidade, ritmo, sentimento e a mulherada ta chegando aí.

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*foto de Renan Rodrigues - obrigada!

2 comentários:

  1. Ju, parabéns, o blog está super legal, as matérias estão ótimas. Espero poder ler o livro, tenho certeza que vai ficar lindo.
    Beijos prima, parabéns a todas.
    Ligia Marina

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