sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Periferia renova samba de São Paulo

As comunidades de samba em São Paulo tem papel fundamental na propagação e perpetuação do samba na capital. Elas têm aparecido com frequência no cenário do samba aqui na cidade e demonstram a capacidade de manutenção e recriação constante do ritmo.
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As comunidades já eram vistas na década de 60 com a manifestação carnavalesca dos Cordões. Durante décadas aconteceram reuniões nos dias de festas religiosas negras nos bairros paulistanos da Barra Funda e do Jabaquara. Porém, com a oficialização do carnaval foi redigido um regulamento de disciplina que obrigava todos os cordões a se transformarem em movimentos semelhantes aos do Rio de Janeiro, as escolas de samba. As manifestações culturais mais espontâneas e populares ligadas ao samba perderam espaço pelo grande destaque que foi dado às escolas.
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Um processo inverso tem ocorrido a partir da década de 90. Os movimentos começaram a reaparecer, mostrando a força do ritmo musical como agente comunitário e agregador de valor cultural. Para José Alfredo Gonçalves Miranda, o Paquera, a importância desses movimentos é valorizar a cultura e a identidade cultural do País, além de determinar o samba como um ritmo independente do carnaval. Ele é fundador de uma das mais representativas comunidades, o Samba da Vela, e tem o ritmo como condutor de seus projetos profissionais e pessoais.
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Comunidades como o Samba da Vela, Kolombolo, Samba da Laje, Samba da Tenda, Samba D´elas, todas em São Paulo e o Núcleo Cupinzeiro, em Campinas, têm projetos voltados ao resgate das raízes do samba paulista e realizam um trabalho educativo e cultural com relação ao ritmo. Suas atividades apresentam a história dos batuques, seus compositores e músicas para o enriquecimento das rodas atuais, como uma forma de resgatar e registrar o passado, até então pouco conhecido, e moldar um futuro com o samba tradicional. “As raízes do samba paulista podem, nesses espaços, serem conhecidas e partilhadas pelas novas gerações proporcionando, assim, o aparecimento de sambistas jovens de qualidade porque criam músicas contemporâneas, que se embasam nas tradições passadas conhecidas e absorvidas nestes espaços”, diz a antropóloga Olga Von Simson.
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Grande parte dos movimentos que existem hoje foram idealizados por mulheres. “Muitos se originaram de iniciativas femininas em busca de melhores condições de vida para os bairros de regiões periféricas das grandes cidades”, explica Olga.
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Na Folha de S. Paulo de ontem, dia 10, foi publicada uma matéria interessantíssima sobre o reencontro de sambistas do mutirão, movimento iniciado em 1997 para "resgatar o samba" que estava ofuscado pelo crescimento do pagode e que originiou a maioria das comunidades atuais.
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Movimento surgiu no fim dos anos 90, com foco no samba de raiz, na formação de novos talentos e novas composições
Encontro Mutirão do Samba impulsiona novos sambistas, como Douglas Germano, Adriana Moreira e Marquinho Dikuã
THIAGO MENDONÇA- COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A tarde chuvosa de anteontem não impediu a descontração do encontro, que começou com atraso devido aos alagamentos. Na mesa do bar estavam representantes de algumas das comunidades de samba de São Paulo, movimento que tomou conta das periferias.
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Presentes Selito SD, do Projeto Nosso Samba de Osasco, T.Kaçula, da Rua do Samba Paulista, Babalu, do Samba da Laje, Marquinhos Dikuã, do Samba de Todos os Tempos, Marquinhos Jaca, da Vai-Vai, e Caio Prado, ex-Projeto Nosso Samba. Adriana Moreira, uma das belas vozes desta geração de sambistas, avisa que ela e Douglas Germano não conseguirão vir por conta da chuva. Entre sambas e risadas, eles contam a história do novo samba paulista.
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Nos anos 90, surgiram os primeiros sinais de saturação do pagode comercial. Ao mesmo tempo, as escolas de samba vinham deixando de agregar compositores para se tornarem um triste pastiche dos desfiles cariocas. Não havia mais espaços para os compositores. Alguns anunciaram a morte do samba, mas ele sobreviveu tímida e desorganizadamente nos quintais e botecos da periferia paulistana.
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Em 1997, surgiu o Mutirão do Samba, um encontro de sambistas, visando o culto ao samba de raiz, a formação de novos talentos e a exibição de novos sambas. Douglas, um dos fundadores, via ali um estímulo à criação. "O Mutirão nasceu com a vontade de registrar nossa própria história. Neste grupo de 32 pessoas havia compositores, percussionistas de escola de samba e de botequim, instrumentistas, cantores."
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Surgia algo novo em São Paulo. "Uma roda com composições próprias, que era ao mesmo tempo um encontro e um espaço de formação", lembra Adriana. O mutirão durou três anos e dali saiu toda uma nova geração de compositores e músicos, alguns com trabalhos autorais, como Adriana, Douglas e Kiko Dinucci.
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A experiência do Mutirão serviu como inspiração para a formação de uma série de novas experiências. Projeto Nosso Samba, Samba da Vela, Samba Autêntico, Samba da Laje, Samba de Todos os Tempos, entre dezenas de comunidades. "Surgiu uma série desses núcleos, a partir do samba tradicional", conta Selito. "Ninguém aguentava mais aquela mesmice dos anos 90", diz Kaçula. "A vulgarização das letras a repetição das fórmulas de sucesso."As comunidades são um culto às batucadas, uma retomada do samba a partir da tradição, que gerou uma nova sonoridade paulistana.
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O movimento desencadeou também a busca de um samba com sotaque próprio, livre do samba do Rio. Caio Prado identifica a ideia de morte do samba com o culto excessivo ao passado do samba carioca. "Queríamos um samba com ideias nossas, literatura nossa, que falasse do nosso cotidiano."
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O novo samba paulistano procura ser a crônica de seu tempo e espaço. Como observa Marquinhos Jaca, "tem gente que usa roupa de bamba da antiga, agindo como se vivesse em 1954. Nosso samba tem que retratar nossa realidade".
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Marquinho Dikuã acredita que as comunidades possam abrir uma nova possibilidade para sua geração de sambistas. Está em curso um boom de independente de discos de samba. "Hoje há em São Paulo 30, 40 comunidades de samba que reúnem por ano 300 a 400 mil pessoas. Temos público." Caio coloca um porém: "A gente conseguiu se reunir para produzir, mas essa produção não consegue ser escoada. A pergunta é como quebrar a barreira e cair nas graças do povo."


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Simpósio Paulista do Samba e Cidadania

A Universidade da Cidade de São Paulo (UNICID), será palco de um dia de apresentações/discussões sobre o samba como patrimônio histórico da cultura brasileira (se é que alguém duvida disso) e também da utilização das quadras de escola de samba como estratégia cultural e a inclusão destas no roteiro turístico de visita para a Copa do Mundo de 2014. Para nossa surpresa, as mulheres no samba serão tema de uma das apresentações!

Entre os palestrantes, a Profª Olga Simson e Nelsinho Crecibeni (Origem do Samba Paulista), Osvaldinho da Cuíca e Carlos Costa (Samba tradição e Modernidade), Moisés da Rocha e Evaristo de Carvalho (O Samba na Mídia), Maria Aparecida Urbano e Maria Helena Britto (Mulheres do Samba), Sebastião Araujo e João Carlos de Oliveira (O Samba como fonte de trabalho e renda), Profº Juarez da Unicid e Profª Anair Novaes do Cone (A Escola de Samba, o Samba na Escola - Lei 10.639), Luiz Sales da SPTuris e Kelly Oliveira do SESC Ipiranga (O Samba no calendário turístico de São Paulo), Dr. Luiz Antonio Marrey da Secretaria de Estado da Justiça e Defesa da Cidadania e Sra. Quenis Gonzaga da Secretaria Geral do Governo Federal (Samba e Cidadania).

Data:12 de dezembro, das 9 às 16 horas
Endereço: Rua Cesário Galeno, 448/475, Tatuapé -,
Inscrições no local

Parte da Manhã
Mesa 1 - Origem do Samba Paulista
Mesa 2 - Samba tradição e Modernidade
Mesa 3 - O Samba na Mídia
Mesa 4 - Mulheres no Samba

Parte da Tarde
Mesa 5 - O Samba como fonte de trabalho e Renda
Mesa 6 - Escola Samba, o Samba na Escola ( Lei 10.639)
Mesa 7 - O Samba no Calendário Turístico de SP
Mesa 8 - Samba e Cidadania

Apoteose
Escola de Samba Acadêmicos do Tatuapé
Horário : 16:30
R. Melo Peixoto, 1513 - Tatuapé - São Paulo

As inscrições podem ser encaminhadas para o e-mail :
falanegao@itelefonica.com.br

terça-feira, 24 de novembro de 2009

o livro!

Amigos e amigas,

Esse ano foi corrido, cansativo, estressante. Abrimos mão de viagens, baladas e comemorações para nos dedicarmos ao nosso tcc e agora que ele está pronto, queremos compartilhar com vocês!

O título do livro é "Elas e o samba - a presença feminina nos batuques de São Paulo", e no próximo sábado, dia 28, às 15h, o grupo Samba de União fará um "sambinha" para mostrarmos o resultado desse 1 ano de trabalho e comemorar com os amigos mais queridos e que nos apoiaram neste período.

A entrada será 10 reais e o $$ será revertido para bancar nosso projeto. O endereço é Bar Célia - Rua: Vitorino de Moraes, 517 - Chác. Santo Antônio.

Contamos com vocês.
Joyce Juliana Luiza Renata

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

maria esther - a maria do samba

Como já contamos por aqui, criamos esse blog para falar sobre o samba de São Paulo por conta do nosso Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Enquanto desenvolvíamos o projeto, percebemos que se sobre o samba paulista há poucos registros, menos ainda sobre a presença das mulheres nas rodas.
Assumimos o desafio de buscar personagens que vivem para, do e pelo samba. Conhecemos jovens, senhoras, crianças, cada uma com um motivo diferente para justificar a sua paixão e envolvimento. Já estamos na reta final do livro-reportagem, mas há algumas semanas nos deparamos com um personagem que participação no livro é essencial, como foi na história do samba.
Maria Esther Camargo Lara, Maria do Samba, Dona Esther. Fomos até Pirapora do Bom Jesus, uma das cidades que samba paulista começou se desenvolver, para conhecer a simpática, doce e geniosa mulher.

Chegamos na cidade por volta das 10h e fomos procurar a casa de Esther. Ela não nos deu o endereço, disse que era só perguntar na rua que todos sabiam onde morava a Maria do Samba. Depois de abordar alguns moradores, encontramos a casa vinho, com moldura em azul e janelas fechadas. Na porta, um oratório, com enfeites de natal, miniaturas de violões e máscaras de carnaval penduradas.

Depois de algumas palmas, ela nos atende. Rosto carregado de maquiagem, sobrancelhas perfeitamente traçadas por um delineador, brincos, anéis e roupas elegantes, mas gastas pelo tempo. Explica que prefere um lugar mais calmo para a entrevista e sugere a casa de uma amiga. Segundos depois muda de ideia e sugere um pesqueiro e restaurante para o bate-papo. “É longe, mas é pertinho, em uma hora estamos lá”.
Durante o caminho, Esther vai mostrando os pontos turísticos e contando um pouco sobre a história da cidade.Ela nos apresenta o lugar com tamanha intimidade que parece ser a anfitriã. Depois de prometer ao dono que volta para o almoço, seguimos para a beira do rio e começamos o bate-papo. Sentada no chão, ela parece à vontade, mas não larga a sua bolsa e uma sacola com alguns textos sobre a história do samba, que ela mesma escreveu.

Longe dos vizinhos, ‘todos fofoqueiros’, a sambista fala baixo. A história do samba paulista se mistura completamente com a dela e seguir uma ordem cronológica fica praticamente impossível. É difícil precisar as datas reveladas por ela, pois todos os momentos memoráveis aconteceram aos 15 ou 16 anos e pouquíssimo dessa história foi documentado por estudiosos e pesquisadores.

Esther conta da dificuldade que tinha com o pai, um “caipirão”. A rainha apanhava de vara de marmelo quando surpreendida nos barracões, faltando à escola para acompanhar as batucadas. Em uma de várias surras, um dos músicos do barracão intercedeu pela garota. “Não bate na menina, deixe ela ficar aqui”, pediu ao pai de Esther, que tinha apenas 12 anos e diversas marcas das surras que levara com a vara. Mesmo havendo preconceito com a presença de brancos no local, os negros ficaram com dó de Maria Esther e a deixavam entrar no samba.

Na mesma época, ela conheceu Honorato Missé, fazendeiro branco e de muita influência local. Frequentador da festa e também das batucadas, Honorato Missé resolveu desenvolver um novo batuque, que Esther chama de samba de branco, conhecido posteriormente como samba de bumbo. Vendo a participação ativa da menina nas rodas, Missé a convidou para participar desse desenvolvimento e não demorou para que ela logo estivesse nas danças com o bumbo ou com chocalhos e colheres.

No inicio, Esther não sabia os passos e imitava as coreografias feitas nos barracões. “Eu não sabia dançar, só mexia a bunda, como tinha aprendido com as negras”. Da convivência com essas mulheres, a sambista também herdou a fé na Umbanda. Apesar da família tradicionalmente católica, as influências a levaram a ser mãe de santo. Foi numa das festas que ela conheceu Madrinha Eunice, fundadora da primeira escola de samba da cidade de São Paulo, a Lavapés.

Em 1994, Esther fundou o grupo Samba de roda, uma das atrações principais da festa de Bom Jesus do Pirapora, no mês de agosto. Nas apresentações, as mulheres dançam e mexem suas saias, algumas até se arriscam nos instrumentos, mas a predominância é masculina.

A simplicidade se revela também no modo de comer. Ela só usa colher e come com muita calma, em meio às brincadeiras com a cozinheira do lugar. Quando a moça se distrai, Esther abre a sacola plástica e despeja toda a comida que estava em seu prato. “É para o jantar. Ou para o meu vizinho. Coitado, ele passa muita necessidade”.

Voltando para a cidade, Esther apresenta o Espaço Cultural Samba Paulista Vivo Honorato Missé, casa simples que, além de abrigar fotos dos romeiros que visitavam a cidade e as primeiras festas nos barracões, tem na entrada um busto de uma das principais representantes do samba em Pirapora: Maria Esther Camargo Lara.

A casa está cheia, e assim que ela chega, o samba vira segundo plano. As atenções se voltam para ela. Muito simpática, tira fotos, abraça alguns participantes e dança. Uma presença típica de rainha. Quem a vê rodando a saia percebe que a menina que fugia aos barracões ainda comanda o rebolado da senhora.
* agradecimento especial para Renan Rodrigues!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Ideval Anselmo

Paulistano, nascido em 18 de setembro de 1940, em Catanduva, interior do Estado, Ideval Anselmo iniciou sua trajetória no mundo do samba em 1969, ano em que desfilou com o Camisa Verde e Branco o enredo ‘Biografia do Samba – O samba através dos tempos’. Em 1972, o sambista teve a oportunidade de compor seu primeiro samba enredo também no Camisa Verde e Branco e emplacou a letra ‘Literatura de Cordel’. Desde então, suas composições ganharam participações nos desfiles do grupo especial e desfilaram pelas passarelas da cidade paulistana como a Av. São João e Av. Tiradentes.
Ao lado de parceiros, como Zelão, Miro, Jordão, Carlinhos, Soró e outros, criou alguns dos clássicos que marcaram história do carnaval e do samba de São Paulo, como “Narainã”, “A Lua” e “Cabaré”. Consagrado, em novembro de 2005, o maior campeão de sambas de enredo de são Paulo, foi convidado a integrar a Embaixada do Samba Paulistano e participou da gravação da coleção Memória do Samba Paulista. No mesmo projeto gravou o disco, ainda inédito, “Ideval Anselmo e Zelão”.
Para comemorar 40 anos de samba, o Sesc Ipiranga traz nessa sexta-feira, dia 23, às 21h, Ideval Anselmo e os convidados Fabiana Cozza, Thobias do Vai Vai e Zelão.

sábado, 17 de outubro de 2009

Zeca Pagodinho - Uma Prova de Amor

Matéria publicada na quinta-feira, dia 15 de outubro, no Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo. A reportagem faz uma análise geral sobre a produção do novo DVD ao vivo de Zeca Padoginho, sua nova forma de boêmia e sua vida pessoal, Uma Prova de Amor.
O DVD custa em média R$ 35,00.

Zeca, ‘boêmio matinê’ em registro

Por Roberta Pennafort

Uma Prova de Amor, o novo DVD ao vivo de Zeca Pagodinho, começa com uma reflexão sobre suas “duas personalidades”: o Zeca da família, cada dia mais quieto, e o da rua, do bar, que ainda faz das suas, ele explicou na entrevista de lançamento.
Ele canta seis das faixas do CD homônimo, que saiu há um ano, Uma Prova de Amor, Normas da Casa, Esta Melodia, Eta Povo pra Lutar, Ogum e Então Leva, além dos clássicos Deixa a Vida Me Levar, Seu Balance, Não Sou Mais Disso, Faixa Amarela, Vai Vadiar, Vivo Isolado do Mundo, Coração em Desalinho e Verdade.
Dirigido por Rildo Hora e Paulão 7 Cordas, o show foi gravado em julho, no Citibank Hall, no Rio. Zeca está à vontade, cercado dos músicos com quem convive há anos. E sem marcações, ao contrário dos últimos dois DVDs com o selo MTV (Acústico, 2003, e Gafieira, 2006), como este também tem. “Ele não quer saber de repetir música porque o vídeo vai ficar melhor”, conta, nos extras, Joana Mazzuzzhelli, a diretora dos três.
Ele chamou os amigos Almir Guineto e Jorge Ben Jor, além da Velha Guarda da Portela, que o acompanhou em várias faixas. Com Guineto, canta Lama nas Ruas, composta pelos dois 20 anos atrás. Com Ben Jor compartilha um momento lindo: ele se emociona e chora ao registrar a Oração de São Jorge, ao fim de Ogum (Claudemir / Marquinhos PQD), e Zeca lhe dá um abraço afetuoso.
Para animar a festa, de improviso, os dois cantam Taj Mahal. “Não tava combinado! O show tem que ser assim!”, brinca Zeca, que reclama das exigências do formato do DVD. “Querem fazer de mim o que não sou! Não sou cantor, eu gosto de samba. Eu desafino, fico rouco...”
A silhueta aparece mais delgada no show. São dez quilos a menos, resultado de dieta para reduzir o açúcar no sangue que o levou a cortar pães, doces, refrigerantes, menos a cerveja.
Casado há 22 anos, pai de quatro filhos, o pagodeiro fez 50 anos em fevereiro, e segue comemorando. “Tô muito feliz. Fiz muita noitada, mas agora sou boêmio de dia, boêmio matinê. O problema é que quando eu vou pra rua é um Deus nos acuda...”

domingo, 4 de outubro de 2009

Ícone do Samba - Geraldo Filme

Amanhã, dia 05 de outubro, a PUC-SP e a escola de samba Unidos do Peruche realizam mais um evento do projeto Ícone do Samba, que segundo notícia divulgada no site da faculdade, visa à valorização dos artistas deste gênero musical e o resgate da memória do samba nacional.

A primeira edição, realizada em 2008, homenageou os 100 anos de Cartola, e dessa vez o homenageado é o sambista paulistano Geraldo Filme, figura marcante na história do samba paulista.

Geraldo Filme nasceu em 1927, no bairro de Campos Elíseos, em São Paulo, e aos 10 anos de idade, compôs seu primeiro samba: “Eu vou mostrar, eu vou mostrar, que o povo paulista também sabe sambar...”. Foi a maneira que o compositor e instrumentista arrumou de chamar a atenção do pai, Sebastião, para a importância do samba paulista, já que este era um amante assíduo do carnaval carioca. Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre esse lendário do samba, vale a pena, assistir o documentário “Geraldo Filme”.

Programação:

Dia 5/10, no campus Santana

Geraldo Filme: A repercussão de sua obra no samba paulista

– Abertura (19h30):
Prof. Wagner Abrão Martins (diretor do campus Santana), representantes da Pró-Reitoria de Cultura e Relações Comunitárias e representante da Peruche

– Palestras (20h):
Sr. Carlão da Peruche (As contribuições de Gerlaldo Filme para a Peruche)
Osvaldinho da Cuíca (O samba de Pirapora e o samba de Tietê)
Thobias (A "passagem" de Geraldo pela Vai-Vai)
Prof. Ricardo Zanotta (Universidade e samba)
Moisés da Rocha (síntese)

– Apresentação musical e encerramento (21h45)

Doc. Geraldo Filme (Trecho)

domingo, 27 de setembro de 2009

aprendendo samba paulista

samba samba samba...
à primeira vista parece apenas um monte de instrumentos misturados e tocados aleatoriamente. à segunda, terceira, e depois é um universo que nos revela grande valor histórico e tradição.
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o projeto inicial do nosso livro-reportagem era contar a história do samba paulista, pela falta de material documento no mercado. aí, pesquisamos, pesquisamos e pesquisamos, e vimos que se quase nada tinha do samba de sp, menos ainda tinha das mulheres. mudamos o tema, mas o interesse pela historia do nosso samba já tinha sido despertado...
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Ficamos intrigadas com a frase "São Paulo é o túmulo do samba", proferida pelo poeta Vinícius de Morais. Depois, indignadas, porque aqui se faz samba sim. E dos bons.
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marcha sambada, samba rural, pirapora, jongo, umbigada, candomblé, mistura de povos. palavras-chave da batucada paulistana. No especial de carnaval do UOL, Marcelo Tás entrevistou um dos grandes ícones do ritmo na capital: Osvaldinho da Cuíca. Uma aula de samba.
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Vale a pena assistir, ouvir como era a marcha, qual a diferença do batuque carioca e o de sp, e a incrível "parceria" de Osvaldinho com a banda Sambô, tocando Led Zepellin em ritmo de samba.
E concordar com o mestre batuqueiro "São Paulo não é o túmulo, e sim o cúmulo do samba".
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viva o samba paulista!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Caráter Integrador

Na busca por entender um pouco sobre a história, as origens e o desenvolvimento do samba paulista, lemos artigos e mais artigos e também bons livros, que encontramos no mercado editorial, já que esse se apresenta bastante escasso quando o assunto é samba na cidade de São Paulo.

Um dos artigos que lemos chama-se “O Samba Paulista e Suas Histórias”, desenvolvido pela pesquisadora do Centro de Memória / Unicamp, Olga R. de Moraes von Simson. No texto Olga discorre toda a trajetória do samba paulista com letras de música exemplificando os principais marcos. Porém, o que nos chamou bastante a atenção, já que isso também será trabalhado em um dos capítulos do livro, é a importância dos trabalhos realizados pelas comunidades do samba na terra da garoa.

“Eles realizam um trabalho importante de formação de público, tornando jovens, adultos e idosos que participam de rodas de samba, pessoas conscientes, atuantes e crtíticas em relação à produção sambística atual. São pessoas, que embora passando a valorizar a ancestralidade e a tradição, apreciam também os novos sambas que, com raízes fincadas no passado, falam de temas da contemporaneidade. (...) Assim, ligando o passado ao presente, eles nos mostram a força das nossas origens, a beleza da nossa memória comum e as possibilidades de sambar com alma, com prazer, mas também com consciência.”

Temos notado claramente esse trabalho por parte das comunidades e a preocupação que elas têm em manter a tradição ou pelo menos a história do samba paulista, muitas vezes admirável. Ontem, uma frase fez bastante sentido em relação ao que notamos aqui e o pouco que pudemos observar no Rio de Janeiro. “Aqui (em São Paulo) o samba tem evoluido bastante com o trabalho das comunidades, já no Rio eu acho que a coisa é mais bairrista, não tem esse espaço”, comentou Bruno Esteves, mais conhecido como Minduim e um dos integrantes do grupo Samba de União.

Pelas nossas andanças em alguns sambas e também comunidades notamos que tem sim muita gente boa chegando no samba paulista, de diferentes formas, alguns com a pegada mais carioca. Essa influência é inevitável e positiva quando bem aproveitada, mas a grande maioria demonstra consciência em relação ao papel do samba na sociedade, que como Olga mesmo denomina - caráter integrador. Uma filosofia de vida.

O próprio símbolo utilizado pelo grupo Samba de União comprova essa integração, a união entre as partes. Podemos até viajar um pouco mais e pensar que essa integração vai além das festividades e dos batuques atuais. Ela começou com a migração dos negros para a capital paulista, que enfrentaram resistência da elite que não aceitava influências culturais de migrantes, muitas vezes negros e com condições sociais financeiras mais delicadas.

O samba acontecia então em curtiços e terreiros, já que as rodas eram proibidas e mal vistas pela maioria da sociedade por representarem a figura do malandro, do homem que não fazia nada, apenas farreava na noite. Apesar da predominância de descendentes de negros, o samba já acolhia brancos e caboclos - como Germano Mathias, por exemplo, em redutos como Bexiga, a Barra Funda, o Brás e o Largo da Bananeira.





terça-feira, 22 de setembro de 2009

Kolombolo - Renato Dias

Na semana passada, encontramos o sambista Renato Dias, na Vila Madalena. O intuito do encontro era explorar e conhecer um pouco mais a história do samba paulista e o trabalho que ele desenvolve com Max Frauendorf e Ligia Fernandes desde 2002, o Kolombolo - entidade sem fins lucrativos que se propõe a divulgar a batucada paulista.

Renato, como o próprio texto disponível no seu site diz, traz na sua trajetória a forte influência do samba inspirado nas batucadas das giras de Candomblé, sua religião presente nas guias usadas no pescoço e nas descrições da presença no samba paulista com a chegada dos escravos no interior e na capital.

Conhecedor da história do samba paulista, Renato se mostra, além de observador e ávido por novos projetos – o que o objetivou a fundar com os seus parceiros o Kolombolo – a sua vontade por mostrar ao público o samba desenvolvido aqui.

O que nos estimulou a procurar o sambista foi a nossa surpresa após comparecer no encontro realizado pelo Kolombolo, no último final de semana do mês de agosto, na Praça do Samba. Quantas mulheres dentro de uma única roda! Durante esse nosso projeto pudemos comparecer em algumas rodas e infelizmente a presença feminina ainda se mostra pequena e sem voz perante a maioria masculina. Porém, no Kolombolo notamos que a mulherada está sim presente e o melhor: de todas as formas, compondo, tocando, cantando...

A entrevista com o Renato durou cerca de 1h30, dentre inúmeras perguntas, risadas, compartilhamento de ideias, o questionamos sobre o preconceito contra as mulheres nas rodas e contamos sobre a nossa admiração ao ver que lá esse quadro já era bem diferente. Renato nos disse que já houve muito machismo no samba, que hoje sente isso muito mais leve, mas que nota ainda um preconceito contra as mulheres que tocam, “alguns ainda teimam em achar que elas não vão aguentar o tranco, que vão querer parar no meio da roda, mas aqui no Kolombolo é diferente, tem mulheres que tocam muito melhor que os homens e não priorizamos o sexo e sim a capacidade ou mesmo a vontade da pessoa em aprender e desenvolver um trabalho bacana”, afirma o sambista.

Para os que quiserem acompanhar um dos encontros realizados pelo Kolombolo, no dia 27 de setembro, próximo domingo, a partir das 15h, na Praça do Samba – Rua: Belmiro Braga, s/n, Pinheiros.

Segue também uma matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo, no dia 9 de setembro, sobre o trabalho “Projeto Memória do Samba Paulista”, desenvolvido pelo Kolombolo.

As diversas batucadas feitas na terra da garoa

Projeto Memória do Samba Paulista lança primeira leva de 12 CDs que registram as obras de Toniquinho Batuqueiro, das velhas guardas e de outros compositores

Francisco Quinteiro Pires

Nos anos 1940, quando Carlos Alberto Caetano e outros moradores da zona norte queriam sambar, tinham de atravessar o Centro para participar dos desfiles de escolas como Lavapés e Campos Elísios. Insatisfeito com a diretoria da Lavapés, Carlos fundou a Unidos do Peruche, em 1955. Nas décadas seguintes, ele se tornaria o Carlão do Peruche, um dos sambistas mais importantes de São Paulo.
Ouça trecho de TristezaDe outra insatisfação nasceu, em 2002, o Kolombolo, entidade sem fins lucrativos que se propõe a divulgar a batucada paulista. Em parceria com a ONG Sambatá, que explora a ascendência africana na cultura nacional, Kolombolo criou o Memória do Samba Paulista, série de 12 CDs, distribuídos pela Tratore, com as composições de sambistas paulistas e das velhas guardas. A direção artística é de Guga Stroeter. A produção, de Renato Dias e T. Kaçula. Segundo Renato, compositor e um dos fundadores da Kolombolo, as características do samba paulista são percebidas na interpretação e na linha melódica das obras gravadas. A instrumentação dos CDs adota o padrão carioca, difundido pelo Brasil. A formação mais comum é de violões 6 e 7 cordas, cavaco, tantã, cuíca, pandeiro e surdo, apesar do emprego, aqui e ali, da viola, do trompete, do pífano ou do violoncelo. "O samba de São Paulo é mais carregado, triste, e menos festivo", diz Renato. "É duro, com o pé arrastado no chão, herança indígena, do jeito de dançar dos tupis." E relembra o amálgama entre as matrizes africana, europeia e indígena que resultou na batucada da terra da garoa. Para ele, o projeto abala "a dificuldade de São Paulo assumir a sua cultura, em vez de ser apenas um consumidor das produções culturais de outros Estados". "Queremos fazer divulgação, não estamos a fim de discutir qual samba no Brasil é o melhor", ele alerta.Já foram lançados quatro dos 12 discos. Um deles é o da Velha Guarda do Peruche, com 13 sambas e uma faixa que traz declarações de Carlão do Peruche e Décio Ferreira. Os intérpretes, entre eles Carlão e Denise Camargo, se revezam em composições antigas e criadas para o projeto, como Repicar dos Tamborins (Carlão), Filial de Samba (Geraldo Filme/Narciso Lobo) e Caqui, Celeiro de Bambas (T. Kaçula/Renato Dias).Toniquinho Batuqueiro é o primeiro disco-solo, com 14 faixas, deste compositor nascido em Piracicaba, em 1929. Ele havia gravado algumas obras, junto com Geraldo Filme e Zeca da Casa Verde, em Plínio Marcos em Prosa e Samba - Nas Quebradas do Mundaréu (1974), disco fora de catálogo. A presença da viola no CD de Toniquinho realça as origens rurais da batucada paulista. "E na voz ele carrega a tradição dos cururuzeiros e tambozeiros, foi com eles que aprendeu a gingar e a versar", diz Renato. Toniquinho, cego há 10 anos, gravou composições novas, como Kolombolo, parceria com Renato e T. Kaçula, e Bolo de Fubá, da mesma dupla, além de antigas, como Ditado Antigo, Tristeza, Saco Vazio (com Zeca), e sambas-enredo para as escolas Rosas de Ouro, Peruche e Unidos da Vila Maria.Toniquinho é um dos integrantes da Embaixada do Samba Paulistano, fundada em 1995 para preservar o carnaval da cidade. A Embaixada assumiu a indicação dos cidadão e cidadã do samba de São Paulo. É formada por mais de 20 integrantes das velhas guardas. O repertório do CD da Embaixada, entre outros, registra Biografia do Samba (Talismã/Tabu), Meu Sabiá (Mestre Feijoada) e Lá Vem Ela (Fernando Penteado).Completa a primeira leva o grupo Tias Baianas Paulistas, idealizado por Valter Cardoso, em 1994, com integrantes da Nenê de Vila Matilde, Camisa Verde e Branco e Vai-Vai, para valorizar o papel das baianas nas agremiações. No CD, comparecem Grupo da Barra Funda (Dionísio Barbosa/Luiz Barbosa), O Nosso Coração É Claridade (Tabajara Rosa), entre outros.Em 2010 serão lançados os oito CDs restantes: Velha Guarda da Nenê de Vila Matilde; Ideval Anselmo e Zelão; Velha Guarda da Rosas de Ouro; Tio Mário; Velha Guarda do Vai-Vai; Denise Camargo; João Borba e Velha Guarda da Unidos de Vila Maria. Segundo Renato, "o resumo do projeto é uma frase de Plínio Marcos: "Um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre".

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Samba mulherão

O segundo capítulo do nosso livro terá a temática do machismo, se o samba apresenta traços de uma cultura com valores mais “masculinos” ou não. Não pretendemos cravar nenhuma teoria, e sim questionar a existência de uma resistência ao trabalho feminino no samba e apresentar mulheres que se destacam nas rodas de samba – sejam musas, compositoras, intérpretes ou instrumentistas.
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Para fomentar essa discussão, publicamos aqui matéria divulgada na Folha de S. Paulo de ontem, dia 8 de setembro, sobre a cantora Dhi Ribeiro. Além do preconceito dos autores com “cantoras de famílias endinheiradas” que “cantam aquele sambinha cool, bem comportado e masculino um tanto retrô que a mídia culta adora” (tema já discutido aqui, e que em nossa opinião o “azar é só deles”), notamos certa oposição ao perfil de Dhi.
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Assim como Alcione, a cantora assume o papel de mulherão e mostra que pode sim, falar de seus desejos e satisfações como qualquer bom sambista homem faz. A reportagem ainda faz comparação com as funkeiras, que falam sem pudor sobre as regras que os homens tem que seguir para conquistá-las. Se essa barreira já foi quebrada no “pancadão”, porque não poderia vir para o samba, uma cultura democrática? Existe algum impedimento de que as letras sejam mais ousadas? Ou será que só os homens podem listar as mulheres que já se relacionaram e o que mais os agradou em cada uma delas?

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- a seguir, reportagem da Folha de S. Paulo do dia 8 de setembro, publicada na Ilustrada.







Samba mulherão
Seguidora de Alcione, a estreante Dhi Ribeiro expõe voz feminina do samba e mostra afinidades com "cachorras" do funk
Carioca criada em Salvador e radicada em Brasília, Dhi Ribeiroacaba de lançar "Manual da Mulher", seu álbum de estreia

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MARCUS PRETO DA REPORTAGEM LOCAL
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A mulher em primeira pessoa. Não umazinha qualquer, mas a do tipo dominadora, que dita as regras que "seu homem" terá de seguir à risca se quiser continuar ali, desfrutando da felicidade de sua companhia. E que, em contrapartida, não tem o menor pudor em dividir com o mundo, letra por letra, todo o bem que ele faz por ela -principalmente na cama.Esses traços de personalidade não são muito diferentes dos que têm servido, nos últimos 20 anos, para descrever as devoradoras vozes femininas do funk carioca. Mas a moça aqui é outra. Um pouco mais recatada, fica no meio do caminho entre a "cachorra" funkeira e a fêmea de Chico Buarque.

Nascida em Nilópolis (RJ), criada em Salvador e radicada em Brasília, Dhi Ribeiro, 43, é o mais novo exemplar dessa espécie tão rara fora do universo do pancadão. Ela acaba de lançar "Manual da Mulher", seu álbum de estreia. Faz samba e tem Alcione como matriz.Talvez venha daí a abismal diferença entre ela e suas colegas de geração -Roberta Sá, Mariana Aydar ou Céu, por exemplo. Cantoras nascidas em famílias endinheiradas, bebem invariavelmente em fontes masculinas - e "cultas"- do samba: Paulinho da Viola, Cartola, Nelson Cavaquinho etc."Tento cantar minha história de vida", diz Dhi. "O samba está se elitizando muito, virando música de universitário -como foi a bossa nova. Quando era menina eu ouvia Agepê e amava. Por que agora a gente só pode ouvir Noel Rosa?""Esse filé maravilhoso que é meu bofe/ Quando me toca, a minha alma quase voa/ Meu menestrel diz que me ama em cada estrofe/ Quer sempre bis, me quer feliz, com a pele boa." Alguém imaginaria alguma das discípulas de Marisa Monte cantando versos como estes?Eles foram escritos por um homem, Paulinho Resende, 59 -o mesmo que vem abastecendo Alcione com material parecido desde pelo menos "Menino Sem Juízo", de 1979, e que já criou para ela verdadeiros clássicos do "samba mulherão", como "A Loba" e "Meu Ébano".O compositor ressalta o teor político que pode haver embaixo deles. "É uma espécie de um escudo, de autodefesa feminina", diz. "Apesar de estarmos em 2010, a mulher ainda é muito agredida -física e psicologicamente. Quando canta essas coisas, está revidando a isso."Não por acaso, também é dele a letra de "Eu Não Domino essa Paixão", samba que abre "Acesa", o novo álbum de Alcione.

Entre o samba e o tango, termina com os quase submissos versos: "Ele me confessou: depois de um botequim, de um chope, um futebol, um samba, enfim.../ Que o seu maior prazer é voltar pra mim". Como assim? O mulherão está manso?"Não. É uma submissão consentida", rebate Alcione. "Tenho que cantar para mulheres como eu as coisas que elas dizem para seus homens -ou, pelo menos, as coisas que gostariam de dizer. Ninguém teria coragem de cantar essas coisas há 30 anos." Nem têm hoje, ao menos em terreno sambista.

Quando foi entrevistada para essa reportagem, Alcione ainda não conhecia o trabalho de Dhi -sua primeira e, até agora, única discípula. Mas não se mostrou espantada com o fato de finalmente ter se tornado influência para a nova geração.Por que tanta demora para que isso acontecesse? "Essas meninas [as cantoras] são muito novas", disse. "Com o tempo vão se atrevendo a impor nossa vontade. Dizer que nós também temos querer, temos nossa maneira própria de amar. Sabe aquela frase que diz que é preciso endurecer, mas sem perder a ternura? É isso aí."
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Crítica
Novata escapa do "padrão Marisa Monte"
RODRIGO FAOUR ESPECIAL PARA A FOLHA

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Alcione fez escola. Ainda bem! Não deixa de ser um alívio, pois parece que quase todas as cantoras que aparecem na MPB de hoje são genéricas de Marisa Monte. Só cantam aquele sambinha cool, bem comportado e masculino um tanto retrô que a mídia culta adora, mas que não comunica bem, não convence. Dhi Ribeiro, assim como a Marrom, canta a alma sexy-suburbana da mulher do povo com direito a gírias gays, voz potente e sangue negro. Esse jogo de sedução, aliado à sua voz forte intuitiva, tem um pouco daquela "sujeira" que está faltando à MPB contemporânea e apesar de uma forçação de barra ou outra mais apelativa de algumas letras que canta, suas mensagens soam verdadeiras.

O problema é que esse personagem que Dhi encarna pode até convencer principalmente nas quatro primeiras faixas, mas vai se perdendo até chegar ao final do CD. Aí entram sambinhas que repisam aqueles velhos clichês do gênero. Seguem alguns exemplos deles: "Chora que chorar faz bem", "Marinheiro me diz o segredo: por que tu não tens medo do mar?". Outros: "De que me vale o poder se tens o dom de encantar", "Já não sei cantar, nem falar de amor/ Choro pra abafar a dor". E aí a gente fica sem saber em que time joga a Dhi. Não que ela tenha de encarnar apenas uma personagem, mas fato é que ela ainda não parece versátil o suficiente em transmitir mensagens tão díspares: ser a mulher poderosa e tigresa em algumas e a bem comportada sofredora resignada em outras ainda que, verdade seja dita, transformar um amontoado de clichês em emoção verdadeira também não é nem um pouco fácil.

Alcione até consegue, mas Alcione é hors concours. Talvez seja um problema de produção, arranjo, de tentar moldá-la no estilo dos discos da Marrom. Fato é que ainda lhe faltam nuances de interpretação. Às vezes a música pede suavidade, languidez, grito. E será mesmo que Dhi é uma sambista? Ou cantaria melhor outros gêneros também? Avaliando isso, ela terá mais chances de se tornar uma intérprete ainda mais interessante. Pelo menos, ela canta com o útero. Porque dessas cantoras novas que cantam sem uma gota de suor e são apáticas sexualmente ou do gênero "sapa-folk", desprovidas de glamour, ninguém agüenta mais.
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MANUAL DA MULHER
Artista: Dhi Ribeiro
Gravadora: Universal
Quanto: R$ 30, em média
Avaliação: regular
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RODRIGO FAOUR é pesquisador musical e autor do livro "História Sexual da MPB" (ed. Record)

* foto retirada do site samba-choro




sábado, 5 de setembro de 2009

Alcione - Acesa


Essa semana, no dia 2 de setembro, o jornal O Estado de S.P. publicou uma matéria sobre o novo Cd de Alcione. Entre as novidades do novo projeto, o que nos chamou a atenção foi a fala da cantora sobre o samba: "O universo do samba é muito machista, eles acham que são os únicos que podem dizer o que querem." Essa mesma opinião tem sido por nós ouvida em diversas entrevistas, por vezes como crítica, mas também como observação e até mesmo aceitação dessa realidade. Esse será um dos tópicos que o nosso livro abordará: Cultura machista ou não?
Confiram a matéria de Roberta Pennafort:

Acesa, a Alcione dos sambas e do amor carnal
Ela fala com a desenvoltura e a graça de sempre, mesmo quando o assunto é a ligação com José Sarney

"Eu sou mesmo acessa, não sou mulher que se ache em qualquer fila do Bradesco!" Quem diz é Alcione, a mulher da voz potente, aplique ruico nos cabelos e unhas longas e decoradas. A brincadeira é com o nome do novo CD, Acesa (SonyBMG), título da faixa assinada por Telma Tavares e Roque Ferreira, que segue a linha mulher-madura-que-sabe-o-que-quer de canções como A Loba.
"Quem me tem assim acessa/ Fica sem defesa para o meu amor / Só come gostoso se for no meu prato/ Só sonha bonito no meu cobertor." Dama da Paixão (Jefferson Junior/Umberto Tavares) também é ousada: "Eu me preparei inteira para você/ Clima à luz de vela só pra te acendar." "O universo do samba é muito machista, eles acham que são os únicos que podem dizer o que querem. Mas que homem não gostaria de ouvir isso?", indaga a cantora maranhense.
Com show de lançamento previsto para outubro, em São Paulo (a escolha é de Alcione, que sente saudade do público da cidade), o CD tem 14 faixas, divididas entre sambas românticos (Eternas Madrugadas, de Fred Camacho e Cassiano Andrade, Não me Peça Pra Ficar, de Valtinho Jota e Andrea Amadeus, Quem dera, de Reinaldo Arias e Paulo Sergio Vallem, e Sinuca de Bico, de Claudemir, Elcio do Pagode e Serginho Meriti) e mais agitados (O Samba me Chamou, de Marquinho PQD e Sombrinha, com participação do grupo Revelação, Nair Grande, de Telma Tavares e Paulo Cesar Freital, Chutando o Balde, de Nei Lopes, com Wilson Simoninha).
O CD também tem outros ritmos - em Eu Não Domino Essa Paixão, que abre o disco, ouve-se até tango. Foi sugestão da cantora. "Adoro! Um dia ainda gravo um disco de tangos e boleros...", diz a Marrom, que também pensa num de blues e jazz, tendo como inspiração suas cantoras favoritas, Ella Fitzgerald, Aretha Franklin e Sarah Vaughn.
A divertida Casa da Mãe da Gente (Junior Rodrigues/Gilson Nogueira) foi trazida de um pagode de Manaus pelo produtor do disco, Jorge Cardoso. A toada Imperador Tocantis é do compositor maranhense Carlinhos Veloz. Encomendada pela novelista Glória Perez, Eu Vou Pra Lapa (Serginho Meriti/ Claudinho Guimaraes) foi lançada na novela Caminhos da Índia, na qual fez participação recente. O Sono dos Justus (Marcus Lima/Marcio Proença/Rodrigo Sestrem) tem letra delicada. Para cantar com ela no novo álbum, Alcione chamou o grupo simples assim. Usando da mesma lógica, fala do amigo e conterrâneo José Sarney. Conta que jamais cogitaria negar ao senador seu apoio, mesmo quando praticamente todo o País está contra ele.
"O Maranhão não tem culpa se o Senado virou um antro de fuxico. Eu tenho muita amizade com o senador. Quando a gente é amigo, é nas alegrias e nos infortúnios. Quem quiser que julgue José Sarney; eu não vou julgar. Ele nunca me deu um emprego, disso todo mundo sabe!"
De trabalho a cantora, de 61 anos, não foge mesmo. Em setembro, canta em Nova York e em Moçambique. Depois de São Paulo, estreia no Canecão. A entrevista acaba e alguém chama Alcione em seu aparelho de rádio, de cor vermelha. O toque é o tema da novela A Escrava Isaura: "Ierê Ierê..."

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Praça do Samba

No próximo domingo visitaremos a Praça do Samba, roda organizada pelo Kolombolo Diá Piratininga que conta com a apresentação de sambas paulistas já consagrados e também músicas da Ala dos Compositores. O evento é mensal e une sambistas e apaixonados pelo ritmo para exaltar o samba paulista.
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Além da música boa, as Tias Baianas Paulistas vendem uma feijoada caprichada para levantar fundos para a Associação, além de entoar diversas cancões. Neste domingo a roda contará também com a presença do Samba de Roda da Dona Aurora, também composto por várias mulheres. Na próxima semana publicaremos fotos e algumas entrevistas. A praça fica na rua Belmiro Braga, s/n, Pinheiros.
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Até lá!
* foto retirada do site do kolombolo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Samba - Poder transformador

Basta se aprofundar um pouco nas leituras ou nas conversas sobre o samba para chegar à conclusão de que o samba não é apenas um ritmo musical brasileiro. Seu poder transformador é notório tanto no Brasil quanto em qualquer outro País e fica clara a alegria que o ritmo traz àqueles que participam diretamenta ou indiretamente do movimento, se é que podemos nomeá-lo dessa maneira. Por isso, hoje resolvemos postar uma matéria de Tonica Chagas para o Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo.


Samba aprende-se no colégio. Do Harlem

Cativados pelo ritmo brasileiro, alunos de escola pública do bairro de NY, famoso pelo gospel, dão show com minibateria
Tonica Chagas

Batuque é um privilégio mas, contrariando o Feitio de Oração, de Noel Rosa, pode-se aprender samba no colégio, sim. E em colégio público americano, como mostraram, no começo da noite de quinta-feira passada nos jardins do Lincoln Center, em Nova York, alunos da Frederick Douglass Academy (FDA), escola secundária municipal no bairro do Harlem. Integrantes da Harlem Samba, uma minibateria formada lá há três anos, desfilaram pelos caminhos e pracinhas do centro cultural nova-iorquino célebre pelas óperas, concertos eruditos e espetáculos de balé, dando um show de 40 minutos no programa de música ao ar livre Lincoln Center Out of Doors. O batuque brasileiro - com mistura de reggae e hip hop - que animou o público americano é uma das matérias preferidas dos alunos da escola, que fica a poucas quadras do Yankee Stadium e no bairro onde um dos estilos prediletos de música é o gospel."Fazer parte da Harlem Samba é como fazer parte de uma banda de rock, a gente se diverte muito", diz Ariel Moyé, de 18 anos, caloura no curso de Artes do City College of Technology. Como muitos dos instrumentistas, mesmo já tendo saído da escola Ariel, ela continua tocando agogô na bateria que é dirigida pelo professor de música Dana Monteiro. Trompetista erudito por formação, com diploma da New York University e da Columbia University, Monteiro (o sobrenome luso vem de Cabo Verde, onde nasceram os pais dele) dá aulas na FDA desde 2001. Mas até ele mesmo aprender o que é samba, música era uma coisa que os alunos só aprendiam por pura obrigação."Sempre tentei ensiná-los a tocar instrumentos de sopro ou de cordas, mas eles só queriam saber de bateria e atabaques e era impossível tocar juntos", conta ele. A razão dessa preferência está no sangue, explica o diretor da FDA, Gregory Hodge, ao apontar os dados etnográficos da escola: 75% dos 1.600 alunos são afro-americanos e 24% são hispânicos.O estalo sobre como entrosar a molecada na mesma harmonia veio nas férias que Monteiro passou no Rio, em 2004, onde um amigo o levou a um ensaio da Unidos de Vila Isabel. "Quando ouvi cerca de 200 pessoas tocando tambores ao mesmo tempo, senti que aquela seria a forma de entrosar os alunos", diz o professor. De volta a Nova York, com discos de samba-enredo na mala, ele foi aprender a tocar todos os instrumentos da percussão brasileira com outro americano, o etnomusicólogo Philip Galinsky, criador e diretor da Samba New York, a "school of samba" mais famosa e atuante da cidade.A batucada foi entrando no currículo da FDA conforme Monteiro e Hodge convenciam amigos que viajavam para o Brasil a trazer-lhes bumbos, repeniques e tamborins. E todo aluno que não gostava ou não conseguia aprender o dó-ré-mi no piano, na flauta ou no violão foi cativado pelo baticumbum. "Uma das grandes vantagens do samba é que ele é democrático", diz Monteiro. "Temos 250 alunos que compartilham pouco mais de 50 instrumentos, todos podem participar, aprendem rápido e gostam disso. Como professor, é gratificante vê-los aprendendo algo novo, como se estivessem estudando uma língua estrangeira, abrindo a cabeça para o mundo."Em 2006, Monteiro formou a Harlem Samba com quatro garotos e quatro meninas escolhidos entre os melhores no novo idioma ensinado na FDA. O grupo agora tem 35 integrantes fixos. Muitos já estão na faculdade, estudando em outros Estados, mas voltam sempre que podem para participar nem que seja só de um ou outro ensaio. A maioria mora, como eles dizem, "cruzando a ponte", no Bronx, onde o quadro socioeconômico é mais duro que o do bairro onde fica a escola que frequentam. O grupo unido pelo samba tem um significado especial para muitos deles.A experiência que passou depois de aprender a tocar chocalho e ficar na linha de frente da bateria foi reveladora para Nikkita McPherson. "Antes, eu só conhecia o carnaval dos imigrantes de Trinidad que desfilam um dia por ano pelas ruas do Bronx, nunca tinha ouvido falar do carnaval brasileiro", lembra Nikkita que, por ter sempre boas notas, já viajou por um programa da FDA duas vezes para o Brasil e conheceu o Rio, São Paulo e Salvador. "Depois de cruzar uma distância de nove horas de voo, bem maior do que a da minha casa até a escola, descobri que aquelas pessoas não são diferentes de mim", diz ela. "São gente pobre que, no carnaval, são muito felizes. São como eu. O samba trouxe muita alegria para a minha vida." Em setembro, com bolsa de estudos integral, ela começa a cursar Ciências Políticas no Darthmouth College, em New Hampshire, uma das oito universidades americanas que integram a tradicional e conceituada Ivy League.Da viagem que fez ao Brasil, Maurice Julius Evans, de 18 anos, outro dos integrantes originais da Harlem Samba, voltou com lembranças iguais às de Nikkita e um repenique - ou "happy Nick", como soa a palavra na pronúncia dele. Evans acabou de ingressar no curso de Física no Hostos College que, por ficar no Bronx, não o deixa longe dos ensaios na FDA. Esta semana, ele divertia os colegas contando que sua mãe, que o faz praticar os solos com toalhas sobre o instrumento para não incomodar os vizinhos, o surpreendeu na missa do domingo passado ao lhe entregar o tamborim com que acompanhava o gospel e pedir que a ensinasse a tocar samba.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Dona Ivone Lara


Carioca, com 88 anos, Dona Ivone Lara não para de fazer história no samba, seja ele carioca, paulista, baiano etc. A sambista marca gerações e quebra o tabu de que samba é coisa de homem, como fez em 1965, ao ser a primeira mulher a assinar um samba enredo.
Com 62 anos de carreira, Dona Ivone Lara acaba de gravar o seu primeiro DVD, no Canecão, Rio de Janeiro. Com artistas consagrados como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Arlindo Cruz, Délcio Carvalho e a Velha Guarda do Império Serrano, a sambista relembrou algumas de suas 500 composições como ‘Sonho Meu’, ‘Tendência’ e ‘Acreditar’.
Para os paulistas, que nem sempre tem a oportunidade de ver essa “dama do samba”, nessa quarta-feira, dia 19 de agosto, às 21h, ela estará presente no Boteco Seu Zé, Pinheiros.


Agradecemos a participação e as dicas de José Antonio Valois.


Serviços: Boteco Seu Zé
Rua: Mourato Coelho, 1.114 – PinheirosValores: R$ 25 porta e R$ 20 antecipado.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Lendo Samba

Para gostar de samba, além de bons ouvidos, é preciso gostar de ler!

Por isso, o .:Samba em Sampa:. recomenda duas leituras interessantes sobre dois importantes personagens do Samba Brasileiro.

A primeira dica é "Adoniran - Uma biografia", do jornalista Celso de Campos Jr. No livro, o autor conta a história do rádio em São Paulo, além da trajetória de João Rubinato, ou Adoniran Barbosa, poeta, compositor, ator de rádio, de TV, de cinema, humorita, artesão entre tantas outras coisas.



Outra boa leitura, é sobre a carioca Dona Ivone Lara. Com a autoria da jornalista Milla Burns, "Nasci para Sonhar e Cantar", detalha a vida da cantora, suas influências e estudos musicais e a arte de ser mulher e fazer música em um meio tão masculino.




quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Carlinhos de Jesus estreia musical sobre evolução do samba em São Paulo

Para transportar para os palcos as características e particularidades do samba em períodos diversos (de 1920 a 1970), o espetáculo "Eu Sou o Samba" convocou 16 atores/cantores e 8 músicos, que utilizam 186 figurinos e interpretam 63 canções em meio a 24 diferentes cenários.
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Após temporada no Rio de Janeiro, que atraiu cerca de 14 mil pessoas às sessões, a montagem chega a São Paulo nesta sexta-feira (31), com temporada no teatro Santa Cruz (região oeste) até 27 de setembro (os ingressos custam de R$ 60 a R$ 80). A direção é de Fábio Pillar.
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Coreografados por Carlinhos de Jesus, os personagens que compõem o musical mostram, durante duas horas, o ritmo e os clássicos criados desde a origem africana do estilo até seu reconhecimento na cultura carioca --com figurinos produzidos pela carnavalesca Rosa Magalhães.
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Em meio a conhecidas canções, como "Se Acaso Você Chegasse", "Meu Mundo Caiu" e "As Rosas Não Falam", o público será transportado a uma viagem que transita entre a praça Onze, no início do século 20, e a avenida Rio Branco, local por onde as escolas desfilavam antes da construção do Sambódromo. Malandros, passistas e cafetões, que fazem parte do contexto histórico, são caracterizados durante o espetáculo, que também tem o objetivo de homenagear grandes intérpretes e compositores do samba, como Ary Barroso, Cartola, Elis Regina e Jamelão.
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Direção: Fábio PillarCom: Bernardo La Rocque, Marcelo Nogheira, Silvio Ferrari, Romeu Evaristo e outros
Duração: 120 minutos Classificação: 12 anos
Texto: Fátima Valença Coreografia: Carlinhos de Jesus
Local: Teatro do Colégio Santa Cruz - R. Orobó, 277 - Alto de Pinheiros - Oeste. Telefone: 3024-5191.Aceita os cartões Diners, MasterCard, Visa. Ingresso: R$ 60 a R$ 80.
Horários: sexta: 21h30/sábado: 21h/domingo: 19h.
(fonte: Folha Online)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Pau Brasil

Na última sexta-feira fomos ao Pau Brasil, um ótimo lugar para quem quer música boa a noite toda. A cerveja é de garrafa e o preço da casa é baixo - 5 reais. Segundo a proprietária - jornalista e sambista - Nilce Reis, " nós batalhamos pelo samba, não é à toa que custa 5 reais em plena Vila Madalena (...) é proposital, nós entendemos que se o samba é popular, o preço tem que ser, o encontro tem que ser, o universo, a energia tem que ser trocada desta maneira. Não pode ser caro, senão perde o sentido. Como é que o samba sendo o maior representante da cultura popular pode ser caro?”
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Decorada com diversas caricaturas de sambistas, o que chama atenção é a roda aberta - qualquer um pode sentar e se arriscar no pandeiro, por exemplo. A casa nasceu de um projeto que existia dentro da favela de Heliópolis. "Fomos pra lá com o objetivo de fazer trabalho social com música. Pensávamos em trabalhar com crianças e não conseguimos (...) então trouxemos o pessoal do projeto Raízes Brasileiras para o Pau Brasil, em São Caetano. Ele nasceu lá, através desse encontro. Começamos com uma roda na favela, que não deu certo (...) mas conhecendo esse pessoal fomos todos para São Caetano. Levamos as crianças que tinham aula no Raízes para ter aula no Pau Brasil. Era um samba de terreiro, uma roda gigante, todas as sextas-feiras (...) e há 3 anos viemos pra Vila Madalena”, conta Nilce.
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Para a dona da casa, que puxa a roda todos os sábados, o espaço é aberto para os jovens, com o intuito de propagar a cultura do samba: “Vocês que vão dar continuidade (...) pro samba não morrer, a gente tem que passar pro jovem, queremos que eles estejam aqui quantas vezes quiserem. Por mais efêmero que pareça algumas pessoas que não conheçam samba freqüentarem a casa, o nosso objetivo é mostrar o que é a música, esse samba tradicional, que conta história, fala de sentimento, de uma maneira que qualquer brasileiro é capaz de entender e sentir”.
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Presença feminina: além do sábado, a roda de hoje também fica por conta de uma mulher: Anita Galvão Bueno. A casa abre às 21h, e fica na rua Inácio Pereira da Rocha, 170, Vila Madalena. Conversaremos com a Anita e, em breve, publicaremos por aqui.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

São filhos e são o que são

Durante nossos poucos meses de estudo sobre o samba, temos notado que, em muitos casos, o samba é um "mal de família", no melhor sentido que a expressão possa ter. Talvez um pouco mais que em outras vertentes musicais.

Fala-se muito de Fulano de Tal que é filho de Beltrano e Ciclana e ainda há uma hipócrita idéia de que se não fosse pelas suas raízes ou pela família em que nasceu, tal pessoa não teria chegado onde chegou.

Acreditamos que talvez não mesmo, e isso é positivo!!!

Talvez se Diogo Nogueira não fosse filho de João Nogueira, não teria chegado nem perto do universo musical do qual seu pai fazia parte. Apesar do dom, pode ser que não tivesse se interessado pela música, não fosse pelas reuniões musicais que presenciou desde menino. Não teria conhecido os filhos de Baden Powell e de Mestre Marçall, que também poderiam não ter aguçado sentimento nenhum pela música, não fosse pelos assobios constantes de seus pais.

Se Mariana Aydar (entrevista abaixo) não tivesse os pais que tem, talvez não teria a oportunidade de se dedicar a música e pior, poderia não ter tido o incentivo que teve em casa, coisa que, dentro deste contexto, me parece fundamental para o sucesso em qualquer carreira.

No caso da filha de Elis Regina, o papo foi outro. Passou do "Maria Rita só faz sucesso porque é filha de Elis Regina e César Camargo Mariano" para "ela imita o estilo da mãe". Hoje é sucesso incontestável e mostra a contradição crítica do brasileiro: Como ela poderia ter sucesso se não fosse realmente boa? A aprovação vem exatamente da boca que critica!

Benditos são aqueles que nasceram em berço musical e foram ninados ao som de canções compostas pelos próprios pais.

Devemos nossos aplausos às familias em que a música passa de geração pra geração e a estes jovens que tem orgulho de vir de onde vieram e passar adiante tudo o que aprenderam, com um brilho único. O "azar" é deles!

Abaixo, um texto sobre Diogo Nogueira, de Sérgio Cabral, provando mais uma vez que o talento vai muito além da herança genética.



*Por Sérgio Cabral

Ao fazer seus songbooks, Almir Chediak queixava-se da falta de grandes cantores das novas gerações. Nas últimas décadas, enquanto nossa música produzia uma fartura de cantoras, os cantores apareciam como se fosse em conta-gotas, sendo alguns deles compositores que se transformavam em grandes intérpretes, como foi o caso, por exemplo, de Milton Nascimento, Caetano Veloso e João Nogueira. Eis que, em pleno alvorecer do século XXI, somos contemplados com Diogo Nogueira, um intérprete que não é apenas um dos maiores cantores de sambas de todos os tempos, mas um dos nossos melhores cantores da música popular brasileira. E um compositor com uma bela carreira pela frente.

O magnífico DVD com o espetáculo realizado no Teatro João Caetano, no Rio, mostra que ele vai além do DNA, pois herdou aquela voz maravilhosa que levou o mesmo Chediak a convidar João Nogueira a cantar em quase todos os songbooks e enriquece suas interpretações com uma postura de palco que nem o pai possuía. É mais bonito, é verdade, mas não é apenas isso. Diogo Nogueira é dotado daquele misterioso talento que faz o espectador acreditar que ocupa o palco inteiro, mesmo quando aparece sozinho. É realmente um mistério, um brilho especial conferido a raros cantores, como, por exemplo, Carmen Miranda e o já citado Caetano Veloso.

Diogo honra o sobrenome. Aliás, que momento emocionante do espetáculo é aquele em que ele e Marcel Powell interpretam Violão vadio, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. A gente fica absolutamente convicto de que os pais deles continuam entre nós, como a confirmar o velho aforismo de Hipócrates de que a vida é breve, mas a arte é longa. Ou, para não ir tão longe, há cerca de quatro séculos antes de Cristo, cito o contemporâneo Ataulfo Alves, para quem “morre o homem e fica a fama”. Ou, ainda, morre o homem, ficam os filhos, digo eu. Afinal, no mesmo show estão os filhos de João Nogueira, de Baden Powell e do Mestre Marçal, Marçalzinho, que brilha na percussão como o pai e o avô, o grande Armando Marçal.

Em dois clássicos de João Nogueira, Do jeito que o rei mandou e Nó na madeira, Diogo divide o palco com Marcelo D2, um artista de grande número de admiradores e que, como criador, tem na cabeça a forma importada dos Estados Unidos e, no coração, o legítimo samba brasileiro. São os efeitos da globalização. Outro que se apresenta ao lado de Diogo Nogueira é Xande de Pilares, do grupo Revelação, na música Cai no samba, umdos sambas inéditos mais aplaudidos do espetáculo. Seu autor é o jovem Ciraninho, um dos parceiros do Diogo no samba-enredo da Portela de 2007. Aliás, Diogo Nogueira não comparece apenas com músicas já conhecidas do público. Ele contribui também com vários sambas inéditos, sendo dois deles de sua autoria. Para cantar os sambas antigos e novos, ele teve o bom senso de dividir o palco também com o que há de melhor em matéria de músicos de samba, a começar por Alceu Maia no cavaquinho, arranjos e produção musical, Dirceu Leite nos sopros e o coro formado por Analimar e Jussara Lourenço.

Os apaixonados pela nossa música somos gratos aos responsáveis pelo lançamento desse DVD.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

"O Samba é uma entidade"


Na última sexta-feira fomos ao show de Mariana Aydar no teatro Cacilda Becker, em São Bernardo. Simpática, ela entrou no palco agradecendo aos 300 convidados por enfrentarem a noite fria e chuvosa para garantir o ingresso e prestigiá-la. Ela confessou que cantar em São Bernardo tem um gosto especial: a cidade foi onde Mariana passou parte da infância, pois os tios e primos – que estavam na platéia – moram lá.

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Apesar do show de lançamento do novo CD ser só em setembro, ela mostrou as músicas Peixes, Ta?, Palavras não falam (a primeira composição dela) e Aqui em Casa – parceria com Duani e uma das melhores do CD. No repertório também entraram músicas do primeiro CD, Kavita, e alguns sambas como Vai Vadiar e Zé do Caroço.

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No final do show, e após o bis (que Mariana tocou uma versão de Zé do Caroço com batidas de funk), contamos para Mariana do nosso projeto, da ideia de exaltar as mulheres que se destacam no samba, e batemos um papo com a cantora. Ela contou a sua história com o samba, falou do pré-conceito de ser filha de artista, das diferenças Rio - São Paulo e, claro, das mulheres ! Seguem alguns trechos da entrevista, que será publicada na íntegra no nosso livro.

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- No seu segundo disco há diversos sambas. De onde veio essa influência? Meu pai, ele tinha um grupo chamado “Premeditando o Breque”, e eles tocavam muito samba, muito samba paulistano. Quando eu estava na sétima série tinha um caroneiro que me levava pra escola, era um monte de criança e eu não me identificava com as pessoas. Tinha o Luis, o motorista, que era da Leandro de Itaquera e na volta ele não deixava ouvir jovem pan, que eu adorava. Ele colocava numa rádio comunitária de samba que só tinha assim... Leci, Branca de Neve, Fundo de quintal, Zeca, tal... Então eu fui ouvindo e sempre gostei. Aí quando eu fui morar em Paris, percebei que era um laço muito forte, que era uma coisa natural minha. Eu acho que o meu cantar, o jeito q eu vejo o meu canto é muito próximo do samba.

- e você quer ser reconhecida como uma sambista? Não. Eu estudei violoncelo, violão, então acho que é difícil fechar em uma coisa. O forro é muito próximo do samba, eu comecei como cantora de forró e cantei muito Jackson do Pandeiro. Mas eu não gostaria de ser, não é de não ser sambista, mas eu não quero fechar em uma coisa só, ser rotulada como nada. Mas o samba é uma entidade, eu tenho essa teoria. Ele é uma entidade que pega algumas pessoas pra ele, ele escolhe. Você é tomada e quando você é tomada realmente, não dá pra ficar sem. Não dá, você não consegue, é uma dependência.

- você acha que tem espaço para essas sambistas da nova geração? Eu acho, eu acho que começou a abrir a cena brasileira pros jovens. Todo mundo ouvia musica internacional quando éramos menores, e isso foi se abrindo. Acho que o samba nunca morre né? O samba sempre está lá. Acho que está chegando a outra classe social que é uma coisa nova. Por mais que chegou nessa classe com a bossa nova não era o samba mesmo, roots. Acho que está chegando e o Zeca é o maior exemplo disso. Ele é um cara muito importante pro samba na atualidade.

- mas e para mulher, você acha que tem espaço ou ainda tem muito preconceito? Acho, e não acho que tem preconceito, eu não sinto isso comigo nem de homem e nem de mulher. Eu fui muito bem recebida pelas pessoas do samba. Porque assim, sou paulista, branca, e eu sinto às vezes essa resistência, mas mais por uma questão da minha vida, e não por ser mulher. É mais por eu ter o não estereótipo de uma sambista. Eu sei que tenho samba no coração, então fico sossegada.

- e essa questão de paulistas e cariocas, você acredita que ainda exista resistência? Tem, tem sim, e é por parte dos dois. Gosto muito do samba do rio, acho que é diferente. Ao mesmo tempo, eu nunca fui ao Berço do Samba de São Matheus, onde dizem que o bicho pega mesmo. Não é questão de melhor ou pior, é uma questão cultural. SP é mais rock, eletrônico, está mais aéreo, porque lá está concentrado. O Rio é uma cidade menor, tanto na periferia, como na cidade, todos os lugares têm samba. E SP não tem essa cultura, então é diferente por essa questão. São Matheus tem essa cultura, mas é muito pequeno em relação ao tamanho da cidade.

- e falando em preconceito, você sentiu algum preconceito por ser filha de músicos ou você acha que te ajudou? Ter sido criada neste meio me ajudou muito porque eu criei intimidade com a música, o palco e tudo o que está em volta muito cedo. Eu não tenho medo de palco, não fico nervosa, não tenho essa coisa, porque fui criada nesse meio. Mas ao mesmo tempo as pessoas acham que minha mãe faz uma coisa pras mim e não é nada disso. Nesse ponto é um pré-conceito no sentido de não conhecerem a minha relação com a minha mãe ou a minha história de vida, então elas já acham alguma coisa.

- a mulher era vista como musa inspiradora e agora elas compõem, interpretam. Como você vê essa inversão de papéis?Olha, eu acho que isso tem a ver com a nossa época mesmo, da mulher. Porque até os anos 50, 60, era diferente a mulher na sociedade. Agora a coisa virou, a mulher vai trabalhar, cuida do marido, entendeu... faz e acontece, trabalha, bota dinheiro em casa e isso vem naturalmente pra música. Mesmo as mulheres compondo, eu mesma quando to compondo, sempre sai um samba. Acho que é uma questão social e eu acho ótimo porque a mulher é incrível, ela tem muita coisa pra falar, muitos sentimentos e o samba precisa disso, dessa sensibilidade, ritmo, sentimento e a mulherada ta chegando aí.

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*foto de Renan Rodrigues - obrigada!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Mariana Aydar


Há cerca de dois meses, nos deparamos com uma matéria da revista Bravo sobre Mariana Aydar, a matéria trazia como título “Um Rosto na Multidão”. Depois de ouvirmos o novo cd, “Peixes Pássaros Pessoas”, e lermos inúmeras criticas sobre a cantora, já que essa tem conquistado bastante espaço na mídia, chegamos à conclusão de que Mariana é sim um rosto na multidão, não um simples rosto, mas um que carrega a marca e as características das recentes cantoras brasileiras. Apesar de crescer no meio da música - o pai é músico e a mãe produtora musical - Mariana mostra que não conquistou o público por essas facilidades e sim pela voz belíssima, pelas composições muito bem escolhidas e pela sua forte e marcante maneira de interpretar diversos gêneros, mas no caso do novo trabalho, o samba em especial.

Nessa sexta-feira, dia 24 de julho, acompanharemos a apresentação de Mariana Aydar no Teatro Cacilda Becker, em São Bernardo do Campo. O show é gratuito e os ingressos serão distribuídos uma hora antes na bilheteria local.

Na próxima semana, postaremos a entrevista com Mariana.

Segue matéria da Revista Bravo, do mês de maio.

Crítica - Um Rosto na Multidão
Guiada pelo samba, mas aberta a outras possibilidades, Mariana Aydar refina suas virtudes num segundo CD que tem tudo para destacá-la entre as dezenas de jovens cantoras brasileiras

Por José Flávio Júnior
Mariana Aydar representa perfeitamente o que é a cantora brasileira em 2009. Canta bem, compõe, tem ótimas referências musicais — e nenhum preconceito, interpretando gêneros diferentes —, é charmosa, jovem e está preparada para encarar as mudanças latentes no mercado musical. Até aí, nenhum problema. Mas ele existe. Essa paulistana de 29 anos compete com dezenas de cantoras que ostentam os mesmos predicados, todas almejando audiências maiores. Como se diferenciar da manada num cenário tão pródigo em talentos?
Mariana responde com Peixes Pássaros Pessoas, seu segundo CD. Tudo o que não estava bem resolvido no primeiro disco — Kavita 1 — é sólido em seu sucessor, desde a capa (a primeira, um mosaico brega com várias imagens de Mariana; no novo CD, a cantora imersa no caos do galpão da escola de samba Leandro de Itaquera) até o repertório (em vez de temas consagrados por Elis Regina, só composições de gente da sua geração ou um pouco mais velha).
O gênero musical predominante é o samba. Mas, curiosamente, Mariana se destaca para valer quando se afasta dele. Uma das fugas se dá na sétima faixa, a irresistível Tá?, um xote todo torto escrito por Carlos Rennó, Pedro Luis e Roberta Sá (uma daquelas cantoras que concorrem com Mariana). As palavras que encerram os versos aparecem pela metade, pois "pra bom entendedor meia palavra bas...", prega o refrão. A brincadeira remete a Cadê Teu Suin-?, do segundo disco do Los Hermanos, grupo que Mariana gravou em seu début.
Como hoje não há nada mais óbvio do que gravar Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante (os líderes da banda carioca), Mariana foi procurar pérolas em outros mares. E achou Peixes, da dupla budista gaúcha Os The Darma Lóvers, que já não merecia ser apenas cult. Originalmente uma balada folk, ela é um brado de libertação, que diz: "nós morremos como peixes/ com o amor que não vivemos/ satisfeitos mais ou menos". A cantora vive o texto com intensidade, pontuando a canção com um grito desbragado, o momento de maior impacto do álbum.
Outro achado é a luxuriosa Beleza, do casal Rodrigo Campos e Luisa Maita (outra "rival" fantástica). Em dueto com a cabo-verdiana Mayra Andrade, Mariana exalta o ato sexual, o calor que a mantém acesa. Casa maravilhosamente bem com Aqui em Casa, criação de Mariana e do namorado, Duani, que vem na sequência. Nesse, o melhor samba do disco, uma anfitriã trata seu hóspede com todo carinho, mas teme que ele confunda a cortesia com outra coisa. Tem jeitão de samba para a história, que será lembrado por ter inaugurado um assunto. O novo CD deixa Mariana numa posição privilegiada diante das adversárias. Quem lucra é o fã de música brasileira: enquanto as cantoras se estapeiam por um lugar ao sol, ele sorri com a certeza de que já ganhou.

O DISCO
Peixes Pássaros Pessoas (Universal), de Mariana Aydar. Produtores: Duani e Kassin. Preço médio: R$ 30.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Clube do Democráticos - RJ

No dia 09 de julho foi feriado em Sampa então fomos para o Rio de Janeiro conhecer os sambas de lá. Não poderíamos deixar de visitar a Lapa, principal reduto carioca do gênero, que possui diversas casas em um só local.


Apesar da forte chuva que caiu no sábado à noite, as ruas da Lapa estavam lotadas. Pessoas de todo tipo, de patricinha a desencanado, cabelos lisos, loiros e encaracolados, uma boa mistura como todo bom samba - sem preconceito.


Entramos no Clube dos Democráticos - a casa de samba mais antiga do Rio de Janeiro. Além de ser um lugar de boa música, a ida ao clube vale pelo seu valor histórico. A sede do clube fica em um castelo, na rua Riachuelo, tombado pelo IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - em 1987. No sábado o som estava por conta da Orquestra Republicana, com intervalos ao ritmo de clássicos da MPB, samba, choro e samba-rock.


Não há uma faixa etária predominante, e é comum notar sambistas da velha guarda dançando pelo chão de madeira do salão com uma jovem amante do samba.


Abaixo, um breve histórico da casa - retirado da página oficial do clube na internet: www.clubedosdemocraticos.com.br

Fundado em 19 de janeiro de 1867, na Cidade do Rio de Janeiro, é uma sociedade social recreativa com personalidade jurídica na forma da Lei, tendo por objetivo principal promover entre os seus associados reuniões social, desportivas, carnavalescas, festejadas interna e externamente, além de quaisquer outras diversões permitidas pela legislação.
Nos idos de 1866, período imperial, no meio dos movimentos abolicionistas, republicanos e Guerra contra o Paraguai, apesar das turbulências da época, nesta data, um grupo de comerciantes e boêmios conhecidos pela forma como costumavam se divertir e fazer críticas; liderados pelo português José Alves da Silva, reuniram-se na "Maison Rouge", famoso bar e confeitaria e compraram um bilhete de loteria, em extração do dia de Nossa Senhora da Glória, com a intenção de fundar uma Sociedade Carnavalesca, se sorteados fossem.
A sorte grande aconteceu. Um prêmio de 15 mil contos de réis, uma verdadeira fortuna na época, que foi um incentivo para o Grupo dos XX amantes, como eram conhecidos, levarem adiante a idéia de fundar o "Democráticos Carnavalescos", e acabou acontecendo meses depois no dia 19 de Janeiro de 1867. Seus sócios denominados Carapicus (um peixe) e sua sede é chamada de Castelo. Durante muitos anos, desde o longínquo 1891, as Sociedades Carnavalescas, que tinham como padroeira Nossa Senhora da Glória, o dia 15 de agosto, era dedicado a diversas comemorações em agradecimentos a seus triunfos e suas vitórias, e longe de haver profanação religiosa, os festejos realizados por tais sociedades, constituíam gratidão e reconhecimento a Santa, excelsa padroeira.
Os bailes da Glória, venerada nos salões de festas das Grandes Sociedades, tinham uma consagração ruidosa e era realizado à caráter por seus associados, cavalheiros com smoking e damas em vestidos de alto custo.
Com o declínio das Grandes Sociedades, o Clube dos Democráticos, mantém-se fiel a tradição zela pela sua continuidade.
Em 1867, José Alves da Silva fundador e primeiro Presidente do Clube, devoto de Nossa Senhora da Glória, mandou trazer de Portugal, sua terra natal, uma imagem da santa e desde então, nos 140 anos de existência de nossa instituição, jamais deixamos de prestar homenagens a padroeira do Clube dos Democráticos.



quarta-feira, 15 de julho de 2009

Paulo Vanzolini


Ele não gosta muito de ser lembrado pelos sambas memoráveis que escreveu. Um especialista em répteis e anfíbios, Paulo Vanzolini ganhou um documentário esse ano, Um Homem de Moral, de Ricardo Dias, e tem se destacado nos veículos de comunicação tanto pelas composições quanto pela sua história pra lá de instigante.

Segue matéria belíssima de Diogo Schelp na Revista Bravo desse mês.



Revista BRAVO! Julho/2009

As Viagens Musicais de Paulo Vanzolini
Ou: de como as excursões de um biólogo influenciaram a linguagem e a inspiração de um compositor

Criador de clássicos da música brasileira como Ronda, o compositor Paulo Vanzolini sempre teve o hábito de escrever diários de viagem. Anotados a lápis ou caneta-tinteiro durante suas expedições como biólogo, à luz de lampião e enquanto abanava os mosquitos, esses manuscritos estão encadernados em uma dezena de grossos volumes de capa vermelha. Numa comparação livre, levando-se em consideração o abismo de épocas, pode-se dizer que Vanzolini é o último dos naturalistas-viajantes. O músico e cientista, hoje com 85 anos, seria assim o herdeiro da tradição de Spix e Martius, Darwin, Saint-Hilaire, Langsdorff e outros que percorreram o Brasil no século 19, anotando o que viam, colhendo e empalhando espécies animais e pintando a paisagem. Deles, mantém o espírito desbravador e generalista, em extinção em tempos de ciência cada vez mais especializada.
A maioria das páginas de seus diários, como não poderia deixar de ser, contém inventários detalhados dos bichos encontrados nas incursões mato adentro.Mas há também alguns trechos que permitem, de maneira saborosa, entrever a intersecção entre o Paulo cientista e o Paulo artista. Vanzolini é tema de um documentário que está em cartaz nos cinemas, Um Homem de Moral, dirigido por Ricardo Dias. O filme possibilita uma viagem pelo universo musical de Vanzolini, uma vez que ele se estrutura a partir da atividade do compositor. Já a viagem que os diários propõem é mais errática, complexa e surpreendente. Poderia dar origem a outro documentário.
Muitos dos sambas de Vanzolini nasceram da observação astuta e bem-humorada do cotidiano de São Paulo. Praça Clóvis, por exemplo, conta a história de um sujeito que teve a carteira batida na fila do lotação, mas fica feliz porque o furto o livrou da foto de uma mulher de quem havia tempos tentava esquecer. "Tinha vinte e cinco cruzeiros/ e o seu retrato/ Vinte e cinco eu francamente achei barato/ pra me livrarem do meu atraso de vida". Nos relatos de viagem, o mesmo interesse pelos detalhes aparentemente banais do cotidiano está presente. Em uma expedição ao interior do Maranhão, em janeiro de 1955, o cientista observa com curiosidade a estratégia usada pelos caboclos para lhe vender animais. Escreveu o zoólogo: "O pessoal daqui faz tanto negócio por procurador (vindo o procurado junto como espectador) que nem sei mais quem está vendendo. Há um moleque cujo pai vai caçar calangos mas tem vergonha de vender — manda o moleque, que conta tudo ('me paga logo que meu pai quer comprar uma melancia')". Na mesma viagem, o cientista anotou a seguinte cena presenciada no banheiro de um hotel em São Luís: "Um semianalfabeto lendo e explicando para um analfabeto completo uma crônica mundana sobre o festival de Punta del Leste — namoros de Ibrahim Sued, que não fala inglês, com uma jovem qualquer fabulosa que não fala português". Sued era colonista social de O Globo.
Vanzolini não faz questão de esconder que nada entende de música. Ele não sabe diferenciar tom maior de tom menor e, segundo Martinho da Vila, não tem ritmo algum. As suas canções são feitas na pura intuição, com fragmentos do que ele próprio chama de sua memória melódica submersa. Pela frequência e interesse com que anotou, em seus cadernos, versos sertanejos e canções de domínio popular, é natural que estes também tenham influenciado sua memória musical e, como consequência, suas composições. No Maranhão, ele registrou os seguintes versos populares: "Quando eu vim lá de casa/ que passei no caxelô/ fiz um par de alpercata/ dos queixos do teu avô/ só não fiz mais bem feito/ porque o diabo do véio acordou". Semelhante narrativa insolente e desafiadora, típica dos improvisos nordestinos, foi criada por Vanzolini em sua Capoeira do Arnaldo: "Quando eu vim da minha terra/ Vim fazendo tropelia/ No lugar onde eu passava/ estrada ficava vazia/ quem vinha vindo ficava/ quem ia indo não ia". Apesar de ser um compositor urbano, a temática regionalista e os bichos povoam canções como Toada de Luís, O Rato Roeu a Roupa do Rei de Roma e Cuitelinho. Esta última de domínio público e enriquecida pelo zoólogo com duas novas estrofes.
Entre os versos de autores anônimos anotados por ele, e que de outra maneira teriam se perdido para sempre, está uma moda de viola que ele ouviu em uma expedição de 1964 para capturar cobras na ilha da Vitória, no litoral norte paulista. A Moda do Concar conta a história de um navio espanhol que encalhou nas proximidades da ilha e cuja carga, principalmente óleo de oliva, foi saqueada pelos caiçaras. Hoje, alguns moradores mais velhos do Bonete, praia de pescadores em Ilhabela, ainda se lembram com dificuldade de algumas estrofes da canção. Eles reclamam que não podem mais tocá-la: os pastores das igrejas evangélicas que nos últimos anos se estabeleceram na região proí­bem as músicas tradicionais, consideradas pagãs.
Em Um Homem de Moral, Ricardo Dias recupera uma cena de um de seus filmes anteriores em que o cientista caminha na mata, com uma espingarda na mão, e discorre sobre o prazer que tem de estar naquele ambiente: "A mata é uma dessas coisas em que o todo é mais do que a soma das partes. Não é só essa luz, essas plantas, esses bichos, essas vozes, mas é esse todo que penetra a gente". A frase do herpetólogo (especialista em répteis e anfíbios) também serve para descrever as letras de seus sambas. Nelas, o todo é muito mais do que simplesmente a soma das palavras. Há sempre em cada estrofe um elemento oculto, algo que não é dito mas está lá, ajudando a formar uma cena, uma imagem, um sentimento. Em Teima Quem Quer, por exemplo, Vanzolini apresenta uma discussão entre um homem e uma mulher. Mas o contexto da briga, o motivo que levou o casal a se desentender e o tipo de relacionamento existente entre eles ficam apenas subentendidos. A elipse também está presente em Cravo Branco, que conta a história de um crime passional. A segunda estrofe do samba descreve o momento em que o sujeito vê o revólver apontado para ele e sua falta de reação. No verso seguinte, a vítima já está desabando no chão. A narrativa omite o tiro.
Em seus diários de viagem, Vanzolini demonstra a mesma habilidade para contar as histórias de maneira concisa, econômica, dando ainda mais dramaticidade aos fatos. Em uma viagem ao Xingu, em 1965, o cientista estabeleceu a base de sua expedição em uma aldeia dos camaiurás. À noite, em longas conversas à beira da fogueira, os índios contavam, com naturalidade e em detalhes, como haviam matado homens de sua própria tribo, em geral por suspeita de feitiçaria. O zoólogo resumiu assim um assassinato cometido por um índio chamado Wacucuman, a paulada e tiros de calibre .22: "Encontrou o outro na praia. 'Porque está rindo, W.?' 'Porque vai matar você.' Pau, 22 no coco, corpo n'água". Em suas anotações, Vanzolini agradecia a sorte de nenhum feitiço ruim ter sido atribuído a ele, que, médico, tinha fama de pajé na aldeia.
Entrevistei Paulo Vanzolini pela primeira vez quando eu ainda estava na faculdade, para um trabalho de conclusão de curso. A sala onde o biólogo trabalhava, no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, era escura e povoada por répteis conservados em vidros com formol e por pesados livros que envergavam as estantes. Ele me ofereceu café, e eu recusei. O herpetólogo, então, ofereceu cachaça. De cima de um armário baixo, apanhou uma garrafa de álcool de cozinha 92,8º e serviu o conteúdo em duas canecas de metal. "É para os funcionários do museu não acharem que eu bebo em serviço", explicou, sobre o hábito de guardar pinga no recipiente de plástico. O expediente já havia terminado e o zoólogo estava prestes a dar lugar ao artista. A cachaça escondida no escritório é como o Vanzolini sambista ou os versos ocultos de suas músicas — nem sempre é visível, mas está lá, parte inseparável do todo.

Diogo Schelp é jornalista de Veja.

O FILME Um Homem de Moral, de Ricardo Dias. Em cartaz nos cinemas.